sábado, 25 de janeiro de 2014

Conto

*Dedico este conto à memória de meu filho Eduardo José
       

Uma mancheia de pedrinhas ….

….. Desde tempos imemoriais que o homem procura conhecer o seu futuro naquilo que o rodeia, tentando compreender a linguagem dos sinais que a natureza tão prodigamente colocou ao seu redor ….
Diz-se que Deus fala para nós em sonhos, e através dessas visões oníricas, o homem começou a compreender que eram avisos, muitas vezes, dolorosamente e traumaticamente comprovados no seu dia-a-dia, e face a isso, ele começou a tentar interpretá-los conscientemente, procurando ao seu redor símbolos que o pudessem ajudar a explicar aos seus companheiros o que desejava transmitir e assim, nasceram as “artes divinatórias”.
Estes símbolos, eles encontraram nas mãos das crianças, pois são sempre as crianças na sua pureza e inocência e na sua alegria de viver, não importando em que condições, que nos trazem as mensagens que os anjos nos enviam!
Sendo nómadas, estes grupos caminhavam pelo planeta, procurando melhores condições à medida que as estações mudavam, abrigando-se em cavernas por maiores ou menores períodos de tempo, consoante o local que escolhiam, e foi nessas cavernas que as crianças encontraram os seus primeiros brinquedos ….  “pequenas pedrinhas de cor” …, que elas colecionavam pela sua tonalidade, formato e textura e com as quais brincavam umas com as outras, em joguinhos inventados de momento, como só as crianças sabem fazer, mas que foram aperfeiçoando à medida que o tempo passava, tendo nascido então, o primeiro jogo do “berlinde”, tão de agrado dos rapazinhos de hoje.
E …, foi nas noites longas de inverno, quando as crianças brincavam à roda da fogueira que os homens viram pela primeira vez, as pedrinhas coloridas, pois estas, ao rolarem chocando umas com as outras, impelidas pelos dedos das crianças, refletiam a claridade da fogueira, revolteando em mil tons de luz e cor, mantendo-os fascinados e encantados, quase como hipnotizados … E…, foi para os seus filhos que esses homens começaram a colecionar pedrinhas coloridas, pois, enquanto saíam para caçar, nas suas caminhadas eles “escolhiam” pedras coloridas para lhes levar.
À noite, à roda da fogueira, esses pais comparavam as suas pedras uns com os outros, rivalizando-se amigavelmente, felizes com as suas descobertas e contentes com a alegria que se espelhava nos rostos dos seus filhos. Aí … estabeleceu-se um ritual que, em pouco tempo, deu origem a que cada pai fosse identificado pela “cor” da pedrinha que “recolhia”, já que este primava por procurar e apanhar uma da mesma cor que o filho já possuía e, assim nasceu a “cor do clã familiar”, onde cada chefe de família começou a ser identificado pela cor da pedrinha, tornando-se esta, símbolo da sua família!
No entanto, apesar da prodigalidade da natureza, haviam muitas cores idênticas, facto esse comprovado quando eles as alinhavam umas ao lado das outras, o que gerava confusões e até discussões acaloradas, até um deles teve a “brilhante” ideia de marcar a sua com um pequeno furo, que ele escureceu para esta marca sobressair da tonalidade da pedrinha, e, como o homem é um imitador nato, outro logo se seguiu e, em vez de uma marca, fez dois furinhos e por daí adiante…. Assim nasceu o primeiro “Dominó”…. E …, nas longas noites de inverno, pais e filhos entretinham-se, jogando ao redor da fogueira.
Por essa altura, tornou-se obrigatório nas reuniões da tribo que o testemunho de cada clã fosse colocado em frente do “Chefe da Tribo”, e essa mancheia de pedrinhas coloridas tornou-se a base das suas deliberações, pois, conforme os problemas apresentados, ele alinhava-as consoante as suas decisões e intuições, e face aos resultados evidentes das suas “sábias decisões” este ritual passou a arte divinatória, tendo nascido daí, inúmeras outras que hoje abrangem um leque tão extenso, que será quase impossível enumera-las todas, já que cada um de nós, e à sua maneira, tem um jeito muito próprio de interpretar os sinais que a natureza tão prodigamente colocou ao nosso dispor …. Basta acreditar! Eu acredito!

A minha pedrinha é azul … pois, azul é o infinito!
              
E a tua qual é?



Maria Cândida Barreiros Vieira de Campos

23 Outubro 1997

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