*Dedico este conto
à memória de meu filho Eduardo José
Uma
mancheia de pedrinhas ….
…..
Desde
tempos imemoriais que o homem procura conhecer o seu futuro naquilo que o
rodeia, tentando compreender a linguagem dos sinais que a natureza tão
prodigamente colocou ao seu redor ….
Diz-se que Deus
fala para nós em sonhos, e através dessas visões oníricas, o homem começou a
compreender que eram avisos, muitas vezes, dolorosamente e traumaticamente
comprovados no seu dia-a-dia, e face a isso, ele começou a tentar
interpretá-los conscientemente, procurando ao seu redor símbolos que o pudessem
ajudar a explicar aos seus companheiros o que desejava transmitir e assim,
nasceram as “artes divinatórias”.
Estes símbolos,
eles encontraram nas mãos das crianças, pois são sempre as crianças na sua
pureza e inocência e na sua alegria de viver, não importando em que condições,
que nos trazem as mensagens que os anjos nos enviam!
Sendo nómadas,
estes grupos caminhavam pelo planeta, procurando melhores condições à medida
que as estações mudavam, abrigando-se em cavernas por maiores ou menores
períodos de tempo, consoante o local que escolhiam, e foi nessas cavernas que
as crianças encontraram os seus primeiros brinquedos …. “pequenas
pedrinhas de cor” …, que elas colecionavam pela sua tonalidade, formato e
textura e com as quais brincavam umas com as outras, em joguinhos inventados de
momento, como só as crianças sabem fazer, mas que foram aperfeiçoando à medida
que o tempo passava, tendo nascido então, o primeiro jogo do “berlinde”, tão de agrado dos rapazinhos
de hoje.
E …, foi nas
noites longas de inverno, quando as crianças brincavam à roda da fogueira que
os homens viram pela primeira vez, as pedrinhas coloridas, pois estas, ao
rolarem chocando umas com as outras, impelidas pelos dedos das crianças,
refletiam a claridade da fogueira, revolteando em mil tons de luz e cor,
mantendo-os fascinados e encantados, quase como hipnotizados … E…, foi para os
seus filhos que esses homens começaram a colecionar pedrinhas coloridas, pois,
enquanto saíam para caçar, nas suas caminhadas eles “escolhiam” pedras
coloridas para lhes levar.
À noite, à roda da
fogueira, esses pais comparavam as suas pedras uns com os outros,
rivalizando-se amigavelmente, felizes com as suas descobertas e contentes com a
alegria que se espelhava nos rostos dos seus filhos. Aí … estabeleceu-se um
ritual que, em pouco tempo, deu origem a que cada pai fosse identificado pela “cor” da pedrinha que “recolhia”, já que este primava por
procurar e apanhar uma da mesma cor que o filho já possuía e, assim nasceu a “cor do clã familiar”, onde cada chefe
de família começou a ser identificado pela cor da pedrinha, tornando-se esta,
símbolo da sua família!
No entanto, apesar
da prodigalidade da natureza, haviam muitas cores idênticas, facto esse comprovado
quando eles as alinhavam umas ao lado das outras, o que gerava confusões e até
discussões acaloradas, até um deles teve a “brilhante”
ideia de marcar a sua com um pequeno furo, que ele escureceu para esta marca
sobressair da tonalidade da pedrinha, e, como o homem é um imitador nato, outro
logo se seguiu e, em vez de uma marca, fez dois furinhos e por daí adiante….
Assim nasceu o primeiro “Dominó”…. E
…, nas longas noites de inverno, pais e filhos entretinham-se, jogando ao redor
da fogueira.
Por essa altura,
tornou-se obrigatório nas reuniões da tribo que o testemunho de cada clã fosse
colocado em frente do “Chefe da Tribo”, e
essa mancheia
de pedrinhas coloridas tornou-se a base das suas deliberações, pois,
conforme os problemas apresentados, ele alinhava-as consoante as suas decisões
e intuições, e face aos resultados evidentes das suas “sábias decisões” este
ritual passou a arte divinatória, tendo nascido daí, inúmeras outras que hoje
abrangem um leque tão extenso, que será quase impossível enumera-las todas, já
que cada um de nós, e à sua maneira, tem um jeito muito próprio de interpretar
os sinais que a natureza tão prodigamente colocou ao nosso dispor …. Basta
acreditar! Eu acredito!
A
minha pedrinha é azul … pois, azul é o infinito!
E a tua qual é?
Maria
Cândida Barreiros Vieira de Campos
23 Outubro
1997
